Cogito, ergo sum

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito." (Nietzsche)  Visitantes

Terceiro hemisfério

 

     Ora, me digas, qual o sabor desta tua boca rosada, mulher? Estes lábios finos ao desencontro dos meus, que perdem-se no teu corpo à procura dos seus seios ferventes e macios. Sigo a linha dos horizontes através da circunferência do teu peito. Os meus poros encaixam-se nos teus e absorvem do mesmo fôlego inquieto e maldito. Suas costelas são o ápice de uma insanidade assombrosa. Uma fragilidade e dominância colocam-se nas entrelinhas destes ossos quase expostos. Dedilhar as tuas depressões e declínios e provar do seu abismo íntimo. 

     O desejo é de beijar o teu corpo informal e culto, intolerante e alérgico às minhas ferocidades, arrepiar-te a nuca e traçar as cordilheiras de teu quadril hostil e flutuante. Beber a água, purificadora, no mesmo cálice que as suas mandíbulas abraçaram e transforma-lá em vinho. Embebedarmo-nos do sangue impuro e salvador, místico e miserável.

     Nos vazios opacos, esconde-se dentro do teu zelo a minha solidão, como uma parasita, hospeda-se: sugando-te a carne, as células, a nudez e a sanidade, em uma única tragada estonteante. A sua pele está enrijecida, arqueada, sensível: nossa paixão é um sistema nervoso complexo que vez ou outra encanta os oblíquos olhos satânicos que observam-nos às escuras, por debaixo das saias, no sétimo cigarro e nas gravatas bem amarradas ao pescoço.

     Excitante é a ideia de abrigar-me no teu útero, tão expansível e cômodo, a flor do seu organismo. Ser o órgão que lhe mantém visível e transparente aos questionamentos cósmicos, a célula revolucionária.

     Confesso que descontrolei-me no excesso ao imaginar-te engolida pelas sombras e dissimulações desgraçadas que abastecem a minha alma eloquente e minúscula: perversa. Estavas no fervor do pecado, evaporando por de trás das cortinas, dentro dos nós, desatando-os. Estes, ao desenrolar-se, pousavam no chão, como os vestidos das mulheres, que despencavam desde os ombros, rapidamente, até os pés, em um único frame. Só me é permitido deslumbrar da visão de tuas costas, quanto ao resto: curva sombreada, mistério existente entre o volume das tuas clavículas e a pele. Surge a possibilidade do corpo ser provocante na condição de ser embasado em vazios. Soaria ridículo se eu dissesse que o meu estopim é o descaso, a inexistência, eco irreconhecível e enlouquecedor? Visualizo os vultos descoloridos da sua imagem percorrendo pelos cantos e encantos, driblando o tempo e fazendo-me de estátua contemplativa. 

     Peço-lhe o perdão por não mencionar o seu nome, pois este eu só posso sibilar, escrevê-lo já é ousadia, e nunca, em minha vida, pude ter o desprazer de ser considerado um homem digno, nada, se não um reles medíocre pecador. O que seria a memória: ato, ou essência que prolifera-se no hemisfério mirabolante e árido do meu cérebro? A realidade perde-se entre as arestas e curvas. Declaro, pois então, guardo as mulheres mais bonitas atrás dos olhos. 

Vinicius Valentim

Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago.

— BUKOWSKI, Charles. Misto-Quente.

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

— Retrato - Cecília Meireles

Estranhamente olhar nos olhos de um poeta, principalmente nos de um que nos olha nos olhos, é atentar para os ruídos da sua garganta. A poesia, mesmo para um poeta mudo, é uma arte da traqueia.

— Cesar Kiraly, A cor da garganta, em edição da 7faces sobre Allen Ginsberg

A covardia coloca a questão: É seguro? O comodismo coloca a questão: É popular? A etiqueta coloca a questão: É elegante? Mas a consciência coloca a questão: É correto? E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.

— Martin Luther King

Nódoa

        O navio partira na procura de unir-se ao pôr do Sol que no horizonte findava, deixando a trilha de sua negra fumaça perder-se entre tons avermelhados, e no porto onde José se encontrava, um amontoado de gente corriqueira e desastrosa.

        José já era homem de idade, cabisbaixo, coluna tora; seus passos doíam a fraquejavam na direção. O senhor não via com nitidez o que a alguns palmos distanciava-se de sua áspera visão, não poderia ele — aposentado e inexistente perante conceitos burgueses, se não a vida — comprar os óculos que tanto ansiava. Considerava-os, pois então, objeto da luxúria. O fato levava-o casualmente a comparar a miserabilidade de seus dias com os cruzeiros que vez ou outra se deparava ao ouvir o tilintar do cobre caindo ao chão. 

        José definia-se como amante e niilista de natureza indubitável a respeito do cais onde notava desesperadas pernas cambaleantes; logo, a contradição que mal lhe cabia no corpo exteriorizava-se na sua expressão sempre tão austera, mesmo que através de seus olhos a imagem se comprometesse ao enxergar a sinuosidade nódoa do que era feito de cor e forma, o abstrato comprovava a singularidade desta precária existência, onde nada perdura e tudo se desfaz em cinza, morre em terra.

        “Entretanto, há de ser relevante a meticulosidade do pouso em que os jornais — largados pelo homem — cometem ao abrigarem-se à costa, quem sabe ainda os prelúdios desse momento: o rodopiar pelos ares; símbolo de magnitude dentre o que nos aparenta ser insignificante.” — pensou.

        Cada queda servia-lhe como um soco no estômago, e a idade não submetia o corpo daquele senhor à dormência causada pela insensibilidade e ignorância. Era irrevogável o sentimento de origem desconhecida que lhe preenchia cada artéria ao assistir as mulheres despedindo-se de seus marinheiros, que debruçavam-se sob as janelas circunferenciais dos navios que dos cais partiam ao amarelar da tarde. O conjunto sensatorial e impactante do sacrifício das despedidas causavam-lhe espanto e a seriedade de quem se molda na solidão dos distraídos.

        José tamborilou os dedos no banco de madeira onde se encontrava e tirou de seu surrado paletó a maior riqueza que conseguira aquirir ao longo de sua vida: Um livro do Carlos Drummond de Andrade; aproximou as páginas já oxidadas perto aos olhos e começou a ler o poema “Especulação em Torno da Palavra Homem”, lembrando-se que a complexidade abrigava-se nos corpos que não via.   

Vinicius Valentim

anjoinverso:

Le petit soldat (1963), Jean-Luc Godard

 

Quando penso nas histórias paralelas, penso em Erick. 

Erick, que nunca saberá que o penso.

(Ou que talvez saiba e inconsciente seja eu.)

Aos 21, aprendi a amar a distância e à distância. Aprendi, acima, a admitir que amo. E a perceber a pureza de tal amor.

Erick tem estudado filosofia em excesso, como fazia eu mesma quatro anos atrás. Naquela época, ele tirava o Malboro do bolso e balançava a carteira diante dos meus olhos, apontava Nietzsche em meu colo e dizia: Não seja tão boba, Claudia, nossas almas já são suficientemente rebeldes, vamos ler sobre Buda e descobrir, quem sabe, os fundamentos da paciência.

Eu tenho fumado e dialogado demais, como fazia Erick quatro anos atrás. Naquela época, nós parávamos para observar o engarrafamento da Fernandes Lima às 18h. Eu dizia sobre como as coisas, aos poucos, ruíam em mim e como isso me assustava: como eu tinha medo de não encontrar minhas próprias mãos se tentasse juntá-las para rezar.

O sol se punha ao nosso lado, não às nossas costas. E essas, sim, são as lembranças verdadeiramente delicadas.

Incrível é como somos, Erick e eu, o avesso um do outro. Sempre exatos e jamais intactos. Sempre extremistas, intimistas, suavemente abstratos. Nunca à mesma hora. Anoiteço, Erick acorda. Renasço, Erick chora - diminui, encasula, tudo em minhas bordas.

O estranho do adeus é poder olhar para trás mas não poder voltar, nem mesmo para sussurrar: ei, fique firme. É observar as sombras e só ser visto como sombra, e saber que ainda nesse ver-de-sombra há tanto reconhecido.

Olhos reconhecidos.

Gestos reconhecidos.

Cheiro, espessura, músculos, voz.

Amar ao passado é sincero demais.

Claudia

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