125

"Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não o objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá mais nada para procurar. (…) Dois e dois são quatro é, de qualquer modo, uma coisa extremamente insuportável. Dois e dois são quatro, na minha opinião, é pura insolência. Dois e dois são quatro olha para você com ar petulante, fica no meio do seu caminho com as mãos na cintura e cospe pro lado. Concordo que dois e dois são quatro é uma coisa excelente; porém, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco às vezes é também uma coisinha bem encantadora."

— Dostoiévski, Notas do Subsolo 
27

real beleza

perceber o silêncio no fundo do som
o espaço nos interstícios da matéria
usando a consciência por detrás 
do pensamento.

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito."

Nietzsche 
68

No céu azul se vê
também o seu azul
o dourado duradouro 
de cada raio do sol
em cada inseparável 
estrela que não está só
em cada nuvem dissipada
que não some senão para você 
sem se despedir 
se quebra em espumas 
sem deixar de ser
água. 

184

"Noto a minha solidão nos reflexos e quando cerro meus olhos e procuro a coragem de quem desconhece os perigos, para que eu possa enxergar o que originou-se no inverso da pele. O universo. É corrosivo encolher o corpo e debruçar-se às espreitas, esconder-se, e sentir a agonia fio a fio que é ser só, massivamente doloroso, murmuro aos ácaros, eles não ouvem. Ninguém deseja por perto o silêncio e rasgar dos ácidos, conhecer-me é assassinato, trilhos quebrados. É susto e roubo, eu sugo com os dentes cravados no pescoço e uma mão acariciando-lhe os seios. Sou sujo, um canalha que se esconde por trás de um lírio e provoca a piedade. Não sei a minha identidade, qual seria o limite da minha mente perturbada? Poderia eu ser considerado alguém digno de honra, ou eu a deixei na sarjeta com uma garrafa vazia e um chapéu surrado? Questões que fixam-se como pregos no crânio e lá; enferrujam, em contato com o líquido cerebral. Adequei-me a farsa, acomodei os meus trapos e pontos expostos na falha, poderia considerar o meu falecimento astral. O mundo não subtrai a minha abstinência, precisa-se estar sempre bêbado. O contato humano é desprezível e repugnante, não possuo o desespero pelo diálogo ou demonstração de afeto, ou ânsia por corpos trancando-me em um beco. Reles porcos o que são, na generalizado. Vangloriam-se em um antropocentrismo inquestionável e colocam-se em uma hierarquia estúpida, esquecendo-se dos assaltos e homicídios que virão a sofrer, a solidão está predestinada, como um tiro certeiro na coluna vertebral. Permaneceremos imóveis e ridículos, podres e enrugados, secos, sozinhos. Ouvirá-se os passos, foscos e silenciosos para longe dos teus ossos largados à corrosão do tempo. Lastimei-me quando pensei que a minha solidão não estava impregnada na minha carne, e após preencher cubículos e rasgar-me no chão compreendi a minha matéria, sou só e acomodado, não faço o mínimo esforço para tornar-me compatível ou socialmente admirável."

— Vinicius Valentim 
92

"A vida verdadeira não pode ser reduzida a palavras ditas ou escritas, por ninguém, nunca. A vida verdadeira ocorre quando estamos sozinhos, pensando, sentindo, perdidos na memória, autoconscientes em pleno devaneio, os momentos submicroscópicos."

 Don Delillo, Ponto Ômega
119

Às vezes, eu gritava perguntas às rochas e às árvores, através dos desfiladeiros, ou cantava como um tirolês. - “O que significa o vazio?” A resposta era o silêncio perfeito, e então eu entendia. (…) Vi 63 poentes refletidos naquele monte perpendicular - poentes loucos e fogosos despejando-se como espuma do mar de nuvens através de penhascos inimagináveis, como os penhascos cinzentos que se costuma desenhar quando criança, com todos os tons róseos da esperança ao longe, fazendo com que você se sinta exatamente como eles, brilhante e soturno muito além das palavras.

Kerouac, “Sozinho no topo da Montanha”