Cogito, ergo sum

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito." (Nietzsche)  Visitantes

O que é amor próprio?

Há um limite até que se diferencie? É de fato uma condição de caráter benigno? Quanto à sua necessidade: importa? Existe, sendo ou não obrigatório?

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.

Arthur Schopenhauer 

Meus olhos não sentiram a aurora.
Não parece o mesmo.
Sentir o despetelar do teu corpo
ao meu era uma sina.
Ouvir tua voz entrecortada de sono
e confusão era meu cantar de
pássaros, única certeza de novidades,
existência onírica e arrepio perene.
Nunca fui arraigado ao pecado,
mantive-me distante, solitário.
Mostrastes que era possível apreciar
a metamorfose do remorso
em prazer,
que o silêncio poderia gerar
a inquietação da carne
e o lampejo de epifanias.
Mas acordei, e não era mais teu
corpo adormecido ao meu lado.
Tudo que era munido de luz
fez-se opaco, e todos os pássaros
ficaram prisioneiros de uma
mudez fincada na garganta.
O peito exaurido de alegrias
ficou com nada para assimilar
senão teu retrato esparramado pelas
paredes do meu crânio.

— Enzo Fonseca

Há uma grande escada de crueldade religiosa, com muitos degraus, mas três desses degraus são mais importantes. Outrora, homens eram sacrificados a seu deus, talvez justamente aqueles mais amados entre os demais. Assim ocorreu com as oferendas das primícias em todas as religiões pré-históricas e também com o sacrifício do imperador Tibério na gruta de Mitra, na ilha de Capri, o mais espantoso de todos os anacronismos romanos. Mais tarde, durante a época moral da humanidade, sacrificava-se a seu deus os próprios instintos mais violentos, sacrificava-se sua própria “natureza”: essa a alegria de sacrifícios brilha no olhar cruel do asceta, do iluminado “contra-natura”. O que restava ainda a sacrificar? Não se chegaria ao ponto de sacrificar tudo aquilo que havia de confortante, de sagrado, de sadio, toda esperança, toda fé numa secreta harmonia para a felicidade e a justiça futuras? Não se devia sacrificar o próprio Deus e, por crueldade contra si mesmo, adorar a pedra, a estupidez, a força da gravidade, o destino, o nada? Sacrificar Deus ao nada - esse mistério paradoxal de extrema crueldade foi reservado à geração presente: todos nós já sabemos alguma coisa a respeito.

Nietzsche em “Além do Bem e do Mal”.

(Anotação Pessoal)

Em qual reino ocultam-se as coisas partidas,
o tempo e o sonho?
Três cidades partem minha vida:
como não ser quebrada em espaços
em amor em eternidade
antes dos vinte e um anos?
Espasmos.
Viver é fragmentação.

O meu toque insone gravou-se
Nos teus labirintos digitais,
Resta-lhe os ponteiros rodopiando
Em seus eternos potenciais
Mudos e metamórficos

Quando deparar-te,
Provarás da despedida sem aviso prévio,
Sentirás a ausência da vida infiltrando-se
Nas suas entrelinhas,
Nos seus sentidos famintos.

A imensidade é necessária quando as pegadas,
Rachadas pela seca e inclinadas para a catástrofe
Vulcânica e explosiva
Pisam-te por dentro, esfarelando seus ossos
E estourando-te os órgãos.

A sua mente movimentará os teus olhos em abalos sísmicos,
A pele não fará mais jus aos tecidos,
Serás somente o oco das tuas camadas caladas.
Intocável.

O desespero será nítido na retina,
Captará sons na surdez dos teus tímpanos
E cada grave eclodirá denso no esqueleto,
O agudo lhe agitará, voraz e feroz.

Disse-lhe dos danos irreversíveis
E do sangue que nada em branco estufa.
Pensaste que jamais conheceras alguém tão digno,
Enganou-se.
Beijei sua boca avermelhada, com a língua mergulhada em veneno.

— Vinicius Valentim

(Anotação pessoal)

Habituei-me à memória e às cicatrizes da pele. Tenho-a dura como duras são as peles dos crocodilos. Choro quando mastigo a carne da presa, um inocente entre meus dentes - observe quieto, querido, que em seguida mergulho, sem espaços para misericórdia, e torno com olhos astutos e as pupilas enormes ao que existe ao redor. Ainda com lágrimas, sem um único piscar.

Eu gosto do sabor do sangue, Pablo, ainda que isso me faça sentir mesquinha e cruel. Da voluptuosidade que me preenchia quando tinha os lábios em tua jugular…

Entenda que apenas os amantes sobrevivem, e que o mundo é feito de sobras e mulheres com olhos de répteis.

Claudia

Meses depois, cá volto para falar de teus olhos. São sempre eles, por que não seriam? Dotados de uma melancolia imprescritível, eles me foram em sonho buscar, proliferaram esperanças e prometeram o mundo e um bocado mais, queixaram-se que não lhes dei atenção. Ora, são sempre teus olhos carecendo de mim, queixando-se que as pálpebras já não são melhor aconchego; espantam-me estes teus olhos que falam de todos os quereres humanos imagináveis. Sei que só pertencem a ti, mas como negar o denso que eles transmitem, o opaco que eles carregam? Viveste por ti e mais alguns? Teus olhos transparecem aquilo que evitas. Não me interprete mal, mas estes teus olhos são os melhores amantes que já me atiçaram.

— Lorenzo Fonseca

Terceiro hemisfério

 

     Ora, me digas, qual o sabor desta tua boca rosada, mulher? Estes lábios finos ao desencontro dos meus, que perdem-se no teu corpo à procura dos seus seios ferventes e macios. Sigo a linha dos horizontes através da circunferência do teu peito. Os meus poros encaixam-se nos teus e absorvem do mesmo fôlego inquieto e maldito. Suas costelas são o ápice de uma insanidade assombrosa. Uma fragilidade e dominância colocam-se nas entrelinhas destes ossos quase expostos. Dedilhar as tuas depressões e declínios e provar do seu abismo íntimo. 

     O desejo é de beijar o teu corpo informal e culto, intolerante e alérgico às minhas ferocidades, arrepiar-te a nuca e traçar as cordilheiras de teu quadril hostil e flutuante. Beber a água, purificadora, no mesmo cálice que as suas mandíbulas abraçaram e transforma-lá em vinho. Embebedarmo-nos do sangue impuro e salvador, místico e miserável.

     Nos vazios opacos, esconde-se dentro do teu zelo a minha solidão, como uma parasita, hospeda-se: sugando-te a carne, as células, a nudez e a sanidade, em uma única tragada estonteante. A sua pele está enrijecida, arqueada, sensível: nossa paixão é um sistema nervoso complexo que vez ou outra encanta os oblíquos olhos satânicos que observam-nos às escuras, por debaixo das saias, no sétimo cigarro e nas gravatas bem amarradas ao pescoço.

     Excitante é a ideia de abrigar-me no teu útero, tão expansível e cômodo, a flor do seu organismo. Ser o órgão que lhe mantém visível e transparente aos questionamentos cósmicos, a célula revolucionária.

     Confesso que descontrolei-me no excesso ao imaginar-te engolida pelas sombras e dissimulações desgraçadas que abastecem a minha alma eloquente e minúscula: perversa. Estavas no fervor do pecado, evaporando por de trás das cortinas, dentro dos nós, desatando-os. Estes, ao desenrolar-se, pousavam no chão, como os vestidos das mulheres, que despencavam desde os ombros, rapidamente, até os pés, em um único frame. Só me é permitido deslumbrar da visão de tuas costas, quanto ao resto: curva sombreada, mistério existente entre o volume das tuas clavículas e a pele. Surge a possibilidade do corpo ser provocante na condição de ser embasado em vazios. Soaria ridículo se eu dissesse que o meu estopim é o descaso, a inexistência, eco irreconhecível e enlouquecedor? Visualizo os vultos descoloridos da sua imagem percorrendo pelos cantos e encantos, driblando o tempo e fazendo-me de estátua contemplativa. 

     Peço-lhe o perdão por não mencionar o seu nome, pois este eu só posso sibilar, escrevê-lo já é ousadia, e nunca, em minha vida, pude ter o desprazer de ser considerado um homem digno, nada, se não um reles medíocre pecador. O que seria a memória: ato, ou essência que prolifera-se no hemisfério mirabolante e árido do meu cérebro? A realidade perde-se entre as arestas e curvas. Declaro, pois então, guardo as mulheres mais bonitas atrás dos olhos. 

Vinicius Valentim

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