Cogito, ergo sum

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito." (Nietzsche)  Visitantes

(Anotação Pessoal)

Em qual reino ocultam-se as coisas partidas,
o tempo e o sonho?
Três cidades partem minha vida:
como não ser quebrada em espaços
em amor em eternidade
antes dos vinte e um anos?
Espasmos.
Viver é fragmentação.

O meu toque insone gravou-se
Nos teus labirintos digitais,
Resta-lhe os ponteiros rodopiando
Em seus eternos potenciais
Mudos e metamórficos

Quando deparar-te,
Provarás da despedida sem aviso prévio,
Sentirás a ausência da vida infiltrando-se
Nas suas entrelinhas,
Nos seus sentidos famintos.

A imensidade é necessária quando as pegadas,
Rachadas pela seca e inclinadas para a catástrofe
Vulcânica e explosiva
Pisam-te por dentro, esfarelando seus ossos
E estourando-te os órgãos.

A sua mente movimentará os teus olhos em abalos sísmicos,
A pele não fará mais jus aos tecidos,
Serás somente o oco das tuas camadas caladas.
Intocável.

O desespero será nítido na retina,
Captará sons na surdez dos teus tímpanos
E cada grave eclodirá denso no esqueleto,
O agudo lhe agitará, voraz e feroz.

Disse-lhe dos danos irreversíveis
E do sangue que nada em branco estufa.
Pensaste que jamais conheceras alguém tão digno,
Enganou-se.
Beijei sua boca avermelhada, com a língua mergulhada em veneno.

— Vinicius Valentim

(Anotação pessoal)

Habituei-me à memória e às cicatrizes da pele. Tenho-a dura como duras são as peles dos crocodilos. Choro quando mastigo a carne da presa, um inocente entre meus dentes - observe quieto, querido, que em seguida mergulho, sem espaços para misericórdia, e torno com olhos astutos e as pupilas enormes ao que existe ao redor. Ainda com lágrimas, sem um único piscar.

Eu gosto do sabor do sangue, Pablo, ainda que isso me faça sentir mesquinha e cruel. Da voluptuosidade que me preenchia quando tinha os lábios em tua jugular…

Entenda que apenas os amantes sobrevivem, e que o mundo é feito de sobras e mulheres com olhos de répteis.

Claudia

Meses depois, cá volto para falar de teus olhos. São sempre eles, por que não seriam? Dotados de uma melancolia imprescritível, eles me foram em sonho buscar, proliferaram esperanças e prometeram o mundo e um bocado mais, queixaram-se que não lhes dei atenção. Ora, são sempre teus olhos carecendo de mim, queixando-se que as pálpebras já não são melhor aconchego; espantam-me estes teus olhos que falam de todos os quereres humanos imagináveis. Sei que só pertencem a ti, mas como negar o denso que eles transmitem, o opaco que eles carregam? Viveste por ti e mais alguns? Teus olhos transparecem aquilo que evitas. Não me interprete mal, mas estes teus olhos são os melhores amantes que já me atiçaram.

— Lorenzo Fonseca

Terceiro hemisfério

 

     Ora, me digas, qual o sabor desta tua boca rosada, mulher? Estes lábios finos ao desencontro dos meus, que perdem-se no teu corpo à procura dos seus seios ferventes e macios. Sigo a linha dos horizontes através da circunferência do teu peito. Os meus poros encaixam-se nos teus e absorvem do mesmo fôlego inquieto e maldito. Suas costelas são o ápice de uma insanidade assombrosa. Uma fragilidade e dominância colocam-se nas entrelinhas destes ossos quase expostos. Dedilhar as tuas depressões e declínios e provar do seu abismo íntimo. 

     O desejo é de beijar o teu corpo informal e culto, intolerante e alérgico às minhas ferocidades, arrepiar-te a nuca e traçar as cordilheiras de teu quadril hostil e flutuante. Beber a água, purificadora, no mesmo cálice que as suas mandíbulas abraçaram e transforma-lá em vinho. Embebedarmo-nos do sangue impuro e salvador, místico e miserável.

     Nos vazios opacos, esconde-se dentro do teu zelo a minha solidão, como uma parasita, hospeda-se: sugando-te a carne, as células, a nudez e a sanidade, em uma única tragada estonteante. A sua pele está enrijecida, arqueada, sensível: nossa paixão é um sistema nervoso complexo que vez ou outra encanta os oblíquos olhos satânicos que observam-nos às escuras, por debaixo das saias, no sétimo cigarro e nas gravatas bem amarradas ao pescoço.

     Excitante é a ideia de abrigar-me no teu útero, tão expansível e cômodo, a flor do seu organismo. Ser o órgão que lhe mantém visível e transparente aos questionamentos cósmicos, a célula revolucionária.

     Confesso que descontrolei-me no excesso ao imaginar-te engolida pelas sombras e dissimulações desgraçadas que abastecem a minha alma eloquente e minúscula: perversa. Estavas no fervor do pecado, evaporando por de trás das cortinas, dentro dos nós, desatando-os. Estes, ao desenrolar-se, pousavam no chão, como os vestidos das mulheres, que despencavam desde os ombros, rapidamente, até os pés, em um único frame. Só me é permitido deslumbrar da visão de tuas costas, quanto ao resto: curva sombreada, mistério existente entre o volume das tuas clavículas e a pele. Surge a possibilidade do corpo ser provocante na condição de ser embasado em vazios. Soaria ridículo se eu dissesse que o meu estopim é o descaso, a inexistência, eco irreconhecível e enlouquecedor? Visualizo os vultos descoloridos da sua imagem percorrendo pelos cantos e encantos, driblando o tempo e fazendo-me de estátua contemplativa. 

     Peço-lhe o perdão por não mencionar o seu nome, pois este eu só posso sibilar, escrevê-lo já é ousadia, e nunca, em minha vida, pude ter o desprazer de ser considerado um homem digno, nada, se não um reles medíocre pecador. O que seria a memória: ato, ou essência que prolifera-se no hemisfério mirabolante e árido do meu cérebro? A realidade perde-se entre as arestas e curvas. Declaro, pois então, guardo as mulheres mais bonitas atrás dos olhos. 

Vinicius Valentim

Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago.

— BUKOWSKI, Charles. Misto-Quente.

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

— Retrato - Cecília Meireles

Estranhamente olhar nos olhos de um poeta, principalmente nos de um que nos olha nos olhos, é atentar para os ruídos da sua garganta. A poesia, mesmo para um poeta mudo, é uma arte da traqueia.

— Cesar Kiraly, A cor da garganta, em edição da 7faces sobre Allen Ginsberg

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